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quarta-feira, 2 de junho de 2021

Bonsaiaçu, um conceito nascido da incompetência criativa

Sempre gostei de bonsai, aquela arte japonesa de miniaturização de árvores. Como criança, pedia livros sobre o assunto, estudava e sonhava em algum dia fazer um exemplar. Mas nunca tive a coragem. E hoje nos meus quase 60 anos continuo não tendo.


Há mais de sete anos (no dia 27 de dezembro de 2013 para ser exato), numa incursão à mata para observar aves amazônicas (minha profissão, hobby, e maior prazer), desenterrei algumas plântulas jovens de Parkia pendula para levar para a casa. Não tinha ideia de como, mas imaginei tentar fazer bonsai de uma delas.

A espécie, conhecida na Mata Atlântica como visgueiro ou angelim-saia, aqui na Amazônia é mais chamada de arara-tucupi. É, na minha opinião (uma das se não), a árvore mais linda da Floresta Amazônica. Sua copa estende lateralmente formando quase uma mesa plana de folhas delicadas e recortadas acima das outras copas. Uma das grandonas mesmo da floresta. Como recriar isso em miniatura?

Essa mudinha de uns 50 cm, nascida logo de baixo da mãe, um monstro de 30 m, foi plantada em um vasinho e ficou na meia-sombra do meu jardim de casa. Nunca tive a coragem de fazer qualquer tipo de educação da árvore, muito menos podar qualquer coisa. Só deixei ela sofrer esse tempo todo dentro de um vaso muito pequeno, com uma terra bastante exausta provavelmente.

Ela simplesmente crescia lentamente, um espigão fino, meio torto devido às viradas para achar algum sol, sem a menor tendência de querer esgalhar, muito menos produzir aquela copa chata, espalhada, maravilhosa característica da espécie—só uma vara torta mesmo. Depois de alguns anos, enquanto ela se esticava lentamente, quando não aguentei mais olhar para a desproporcionalidade absurda do vasinho que estava (de plástico ainda), tomei a coragem de passar para um vaso maiorzinho, de concreto, mais pesado e ornamental.  No ato, naturalmente rolou uma “poda” (mais como mutilação) do bololô de raízes.


Dia 21 de maio de 2021, depois de perder todas as folhas, mostrou sinais de querer esgalhar pela primeira vez na vida.

E assim passaram-se mais anos, ela subindo e eu me sentindo cada vez mais incompetente e indeciso.  Deveria ter colocado ela no chão há muito tempo, pensava.  A natureza dela é subir até emergir do dossel e, só então, formar copa.  Quase três metros de altura num vaso ridículo, não era nem uma coisa nem outra.  E para piorar, agora mês passado em plena época de chuva, perdeu todas as folhas, e eu suspeitava que tivesse finalmente batido as botas.  Mais uma perda da pandemia, do descuido, da inoperância e da incompetência.  Triste.

Mas não. As chuvas diminuindo, o sol aparecendo, começou a se esticar o botãozinho na ponta alta da vareta.  Aliviado, mesmo assim eu custei pra entender o que estava acontecendo.  Ela não recuperou; pois nunca tinha passado mal.  Ela trocou suas folhas, como uma Parkia adulta na mata faz.  E quando começou a rebrotar, não foi só na ponta apical.  Pela primeira vez, brotou em muitos lugares, claramente querendo fazer galhos.  Aí sim, entendi que ela tinha decidido (talvez por ter alcançado uma altura no jardim que o sol a iluminava o suficiente) esgalhar de vez.  Rapidinho puxei o vaso para um lugar ainda mais ensolarado, em pleno sol mesmo, para reforçar nela a felicidade da sua decisão.


24 de maio, em pleno sol, esticando em 3 direções, o ápice claramente crescendo pro lado.

O que aconteceu? O líder, o broto apical não subiu. Deitou e até agora está crescendo loucamente na horizontal! E os brotos tronco abaixo estão assumindo direções complementares. O segundo vai pra frente, quase horizontal também, e o terceiro já vai se esticando no sentido ao contrário do primeiro.  Ou seja, de um ano pro outro, de um pulso de crescimento até o próximo, ela mudou de forma. Uma adolescente Parkia pendula, num vaso no meu jardim de casa! Estou muito emocionado. Um pai comemorando o aniversario de quinze anos de sua filhinha, e se preparando para a chegada de pretendentes não merecedores.


27 de maio, lateralizando mesmo.

Já preparei um lugar novo (na “garagem” que nunca recebeu um carro) onde vai passar pelo pergolado e poder esgalhar no sol e se lateralizar à vontade.  Só falta uns três homens pra gente poder mudá-la sem machucar. Semana que vem. Se a minha visão do futuro dela se realizar, ela vai se espalhar mais, o tronco engrossar, talvez até criar sapopemas, e se tornar uma miniatura de uma Parkia da mata. 
 

Na manhã de 30 de maio de 2021 —Uma gracinha, não?

Mas com uma provável altura máxima de 3-5m, acho que nenhum conceito de bonsai aceita.  Tem uma categoria “gigante”?  Enfim, independente da falta de nome politicamente correto, de uma caixinha certa pra “raça” dela, ela se tornou a menina dos meus olhos, sem nenhum mérito meu. Espero que ela viva muito mais tempo que eu—o bonsaizeiro mais inepto, medroso e sortudo que já conheceram—e que um dia vocês a vejam com os meus olhos, de quem a admirou antes dela nem se conhecer como gente.

Mario Cohn-Haft

Acariquara

30 de maio de 2021

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

'Se eu pudesse dormir mais um pouquinho só'... ou 'O que acontece antes dos periquitos chegarem?'

Por Mario Cohn-Haft

Para quem se interessa em pássaros, e especialmente quem presta atenção no som dos pássaros para saber quais e onde estão, a hora que acorda faz toda a diferença. É possível escutar nas primeiras duas horas da manhã mais tipos diferentes de aves do que se detecta no restante do dia inteiro. Isso é porque a hora de pássaro cantar é de mãnha cedo. Mas mesmo nesse horário (que uns consideram ingrato), existe uma agenda sonora muito apertada e rígida. Tem pássaro que começa a cantar logo que o sol nasce e outros que esperam o ar esquentar um pouquinho antes de vocalizar. E existe em grupo seleto de espécies que só canta naquele primeiro lusco-fusco do dia, quando mal começou a clarear e o sol ainda não nasceu. Esses, se você não estiver acordado antes do sol mesmo, não vai notar talvez nunca.

O arapaçu-meio-barrado (Dendrocolaptes picumnus) se chama assim porque tem barras horizontais apenas na barriga e flancos, enquanto é listrado na cabeça e peito. Ele é bem raro na cidade, e aparece somente nas áreas perto de floresta mais extensa. Foto: Anselmo d’Affonseca.

O arapaçu-meio-barrado é um desses. Canta durante alguns minutos no pré-amanhecer (e não em todos os dias) e depois passa o dia se cuidando, sem soltar um pio. Hoje o escutei aqui de casa pela primeira vez há mais de uma década. Foi porque ele tinha sumido e agora voltou? Não sei. Só sei que hoje, se eu não estivesse em pé escutando na janela do quarto exatamente entre 05:33-05:37, teria passado batido. 

Os arapaçus são pássaros que ficam colados nos troncos das árvores, feito pica-pau.  Mas pica-pau costuma furar madeira a procura de brocas e construindo seus ninhos.  O arapaçu é uma ave mais delicada, conta com o trabalho de outras espécies, ou a própria podridão da madeira, para cavar seus ninhos em oco, e cata insetos na casca dos troncos, sem fazer grandes estragos. 

Arapaçus são da cor do tronco, marrom avermelhado e marcados com listras ou risquinhos, mais ou menos dependendo da espécie.  Alías, são duzias de espécies, super parecidas, melhor diferenciadas pelo canto mesmo.  Aqui no Acariquara, uma é comum—o arapaçu-de-bico-branco—e umas outras tres são bem raras mesmo, inclusive o nosso protagonista de hoje. Ele é de mata extensa de terra firme. Mal tolera o limite da cidade onde pode a qualquer momento se retirar para dentro da mata grande.  Aqui no nosso conjunto, suspeito que só aparece quando se aventura a sair um pouco da mata da UFAM.  E mesmo lá, de repente não mora continuamente; talvez só chega de vez em quando, expulso de onde morava e na busca de mais floresta da boa mesmo. 

O arapaçu-de-bico-branco (Dendroplex picus) é a espécie de arapaçu mais comum na cidade. Diferencia-se do outro pelo ventre todo listrado e o bico claro. Foto: Anselmo d’Affonseca.


Sorte a minha que hoje ele se dignou a passar pelo meu quintal e cantar umas poucas vezes até a chegada zoada dos periquitos na mangueira. E mais sorte a minha que eu estava acordado para ouvir.


Posfácio—Três dias depois da observação relatada aqui, no dia 5 de dezembro às 05:19, eu ainda deitado na cama, escutei um canto do arapaçu-meio-barrado. Não se repetiu ao longo da manhã. Os periquitos chegaram do seu dormitório no V8 às 05:41. O sol nasceu às 05:43.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Sabia do sabiá? Saiba, são dois

Em nosso conjunto temos duas espécies de sabiá muito parecidas. Talvez você não tenha percebido a diferença, pois não é tão fácil reconhecer. 

por Mario Cohn-Haft
fotos Anselmo d'Affonseca


Pelo mundo são dezenas de espécies de sabiá, e só no Brasil mais de vinte. Provavelmente a mais conhecida ou celebrada das especies brasileiras é o sabiá-laranjeira, frequente em jardins e hortas em grande parte do sul e sudeste do país. Mas essa não ocorre na região amazônica, onde vivem várias outras espécies. Na nossa cidade temos duas, até muito parecidas: o sabiá-barranco (Turdus leucomelas) e o caraxué-de-bico-preto (Turdus ignobilis). Ocorrem juntinhos no conjunto, e talvez você não tenha percebido a diferença. Vou tentar esclarecer aqui como diferenciar esses dois sabiás, mas não é fácil reconhecê-los, então tenha paciência.

O sabiá-barranco é o mais abundante. Quase toda casa tem um casal que faz ninho de baixo do telhado da varanda em cima de uma viga protegida ou na caixa do ar condicionado. O casal mais persistente daqui de casa (pois já cheguei a ter um casal na frente e outro nos fundos) produz filhotes quase direto, acabando de tirar uma ninhada e na sequência já botando ovos de novo. Quando vê um sabiá no conjunto, deve partir do pressuposto que é o barranco, até comprovar o contrário.

É um sabiá meio sem visual muito marcante, predominantemente pardo. Se você conseguir ver uma das seguintes características, pode sentir segurança de que é mesmo o barranco: cabeça e nuca levemente acinzentadas, contrastando com a cor mais amarronzada das costas; olho ligeiramente avermelhado, diferente da maioria das espécies de sabiá. Mas sem binóculo ou uma proximidade boa com bastante luz é difícil notar essas coisas.

O sabiá-barranco (Turdus leucomelas) ou barranqueiro tem a cabeça mais acinzentada do que as costas e asas, e tem o olho avermelhado. O ventre é “lavado” de um bege meio uniforme.

Dependendo da luz, nem sempre as cores aparecem claramente. Neste caso, o olho vermelho já é suficiente para matar a identificação.
As vezes nenhuma característica diagnóstica se destaca, e por isso, nem sempre é possível sentir firmeza na identificação. Mas a própria falta de distinções já é uma pista.

Já o caraxué-de-bico-preto é menos comum e um pouco mais arisco, fazendo seu ninho escondido entre os galhos de árvores com copa densa e, que eu saiba, nunca nidificando em estruturas de origem humana. É do mesmo tamanho do barranco e também é predominantemente marrom. Mas o marrom dele é mais escuro e mais uniformemente distribuído pelo dorso, na cabeça, costas e asas. O olho é marrom também. Visto de peito no entanto, o caraxué (nome usado na Amazônia para vários tipos de sabiá) é mais contrastante, com a barriga e garganta bem brancas, se destacando da faixa marrom no peito e flancos.

O caraxué-de-bico-preto (Turdus ignobilis) é mais escuro e uniformemente marrom nas costas, asas, cabeça, e até os olhos.

Visto de frente, é mais contrastante em cor do que o sabiá-barranco. A barriga bem branquinha se destaca do peito e dos flancos marrons.

Com o pescoço esticado, o caraxué também mostra a garganta destacadamente branca.

A chave da diferenciação dos dois sabiás, na verdade, não é no olhômetro e sim pela voz. Eles têm repertórios vocais bem diferentes. O barranco canta de jeitos muito variados, as vezes mais alto, as vezes baixinho, as vezes até imitando os cantos de outros pássaros; mas sempre lento e espaçado. Seus apelos ou chamados (barulhos mais curtos e menos melodiosos do que o canto próprio) são ásperos e bem característicos. 

Escutem aqui as vozes do sabiá-barranco.

Já o canto do caraxué-de-bico-preto é bem agudo, melodioso, e mais rápido; seus apelos também mais finos. Para quem conhece o tordo-americano (Turdus migratorius, American Robin) da América do Norte, o canto é quase idêntico. 

Escutem aqui o caraxué-de-bico-preto, começando como canto e depois vários apelos.

Enfim, fora essas distinções relativamente sutis, as duas espécies tem mais em comum do que diferenças. Ambas descem para o chão para catar frutos caídos ou insetos e minhocas na grama ou de baixo das folhas secas. E ambas são originárias do ambiente de várzea (como são, na verdade, a maioria das aves da cidade), ou de áreas naturalmente mais abertas como o cerrado ou lavrados. Raramente ocorrem juntas fora de Manaus e de algumas outras áreas urbanas amazônicas. A convivência dos dois no mesmo lugar parece ser resultado da adaptação a ambientes criados pelo ser humano.

Agora, quase pronto para enviar essa materiazinha para o blog, me caiu uma outra ficha. Acho que tem uma diferença comportamental entre os dois também. Só depois de 30 anos olhando os pássaros da região que finalmente notei isso, e não tive tempo agora para testar essa observação. Mas deixo aqui notado para vocês mesmos tentarem usar e ver se funciona. O caraxué tem um hábito nervosinho de balançar rapidamente a cauda em pulsos ansiosos, nas raras vezes que pousa no aberto. Nunca vi o barranco fazer isso; ele anda e pousa com o rabo parado, sem mexer. Prestem atenção nisso e me contem se dá certo.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Pena de quem não viu

Essa historinha ornitológica não rolou no Acariquara. Mas aconteceu bem perto e será só uma questão de tempo até vermos a mesma coisa aqui dentro. Tomara!

Por Mario Cohn-Haft

Essa pena foi encontrada no campus do Inpa.  Parece ser a penúltima primária externa (a número nove na contagem técnica de penas de aves) da asa direita de uma coruja jacurutu (compare com as penas nesse link). Foi a primeira evidência da presença da nossa nova vizinha.
Começou há alguns meses quando a colega Summer me trouxe uma pena que encontrou no estacionamento do campus 2 do Inpa (onde trabalho). Tratava-se de uma pena de asa de coruja muito grande. Na coleção de aves, comparamos com as penas equivalentes das outras corujas conhecidas na região, mas essa era até maior do que a maior coruja que temos (o murucututu). Só restava uma opção, o jacurutu.

A coruja jacurutu é maior que muitos gaviões e pode comer ratos e mucuras à noite.  Estonteantemente bonita, ela nos brindaria com a sua presença no conjunto. Foto do Rio Grande do Sul: Robson Czaban.
Problema é que a coruja jacurutu (Bubo virginianus) não é uma ave tipicamente amazônica (veja mapa abaixo). O que estaria fazendo no estacionamento do Inpa? Devo acreditar que mora ali mesmo? A resposta veio agora. Outro dia, minha esposa, Rita, me disse ouvir um canto diferente de coruja no campus 1 do Inpa quando ela saía do trabalho depois de noite. Toquei alguns exemplares do canto de jacurutu e ela achava que batia. E o cerco ia fechando. Na noite seguinte procurei o som com a mestre Roberta e amigos. E ouvimos! Parece que tem pelo menos um jacurutu morando no Inpa!

A distribuição do jacurutu é ampla em toda a América, menos na região amazônica.  Fonte: https://www.allaboutbirds.org/guide/Great_Horned_Owl/id.

Acredito que esse registro combina com vários outros casos de expansões de distribuição associadas ao desmatamento (veja matéria Quando um “bom” passaro é um mau sinal?). A floresta amazônica de terra firme é um ambiente tão diferenciado que a maioria das suas espécies só moram ali, e dificilmente bichos de fora penetram. Mas na medida que alteramos o meio ambiente, os lugares de ocupação humana, especialmente cidades e fazendas, afastam a fauna da mata nativa enquanto proporcionam habitat para bichos de outros ecossistemas.

O jacurutu vive em áreas de cerrado e matas de galeria fora da Amazônia. Os poucos registros amazônicos vinham de locais com cerrado ou campinas extensas (veja o mapa de registros). Mas agora o jacurutu mora na cidade de Manaus. O campus do Inpa encosta no campus da Ufam, que por sua vez se cola no nosso conjunto. Fiquem atentos!

terça-feira, 14 de março de 2017

Quando um “bom” pássaro é um mau sinal?

A observação de aves é movida pelo prazer que o comportamento de pássaros proporciona para o observador e pela possibilidade, as vezes, de ver algo novo, algo diferente. “Hoje vi um bicho bom” significa que vi uma ave inesperada, uma fora da rotina. E vi mesmo!  

Por Mario Cohn-Haft

Conversando com a minha esposa dentro de casa logo cedo, cortei o papo por achar que ouvi um som muito diferente. Podia ser? Shh, espera. De novo! Corremos pra rua, olhamos pra cima e lá estava, voando muito alto e gritando: uma curicaca!

A curicaca (Theristicus caudatus) é da mesma família do coró-coró, a dos ibis.  Vem expandido sua distribuição Rio Amazonas acima com a expansão do desmatamento e da pecuária na várzea.  O indivíduo sobrevoando a cidade quase certamente estava em busca de uma nova área de campo para pousar.  Foto: Anselmo d’Affonseca.

Hoje é 14 de março de 2017 e, que eu saiba, esse foi o primeiro registro de curicaca dentro da cidade de Manaus.  Mas já vimos chegando há tempos.  Essa espécie, que forrageia em lamaçais na várzea, é nativa do baixo rio Amazonas (e ambientes não florestais fora da Amazônia, como o Pantanal), mas vem subindo o rio acompanhando a criação de gado na várzea. No estado do Amazonas, a região de Parintins até Itacoatiara tem curicacas há décadas. Mas a subida acima da boca do rio Madeira é relativamente recente. Há alguns poucos anos vem aparecendo na área do encontro das águas e ensaiando subir o Solimões pelas costas do Iranduba e Curari.

Curicacas andam em pastagens, especialmente em áreas de várzea.  O som que ela faz se ouve de longe e, como outras aves, entrega sua presença mesmo quando não se consegue vê-la.  Ouça seu grito no link do Wikiaves. Foto: Anselmo d’Affonseca.

E ela é apenas uma de várias espécies de aves que seguem o mesmo padrão.  O maçaricão quero-quero, o patinho ananaí, o tucanuçu, o avoante, e o pica-pau-branco ainda são todos pássaros “bons” para a nossa região.  Ou seja, são raros porque acabaram de chegar.  Mas vem acompanhando a onda de desmatamento que aos poucos substitui a floresta nativa por ambientes abertos antropizados.  Se não conseguirmos controlar o desmatamento, logo os bichos “bons” e difíceis serão aqueles que são daqui mesmo, e já foram comuns.  Sem drama, só um alerta.  Basta prestar atenção nos pássaros para ver o nosso rumo.

Exemplos de outras espécies de aves de campos de várzea do baixo rio Amazonas que agora começam a subir o Solimões com o desmatamento.  A) quero-quero (Vanellus chilensis), aqui na nossa região também chamado de téu-téu ou maçaricão; B) ananaí (Amazonetta brasiliensis); C) tucanuçu (Ramphastos toco); e D) pica-pau-branco (Melanerpes candidus).  Fotos A-C: Anselmo d’Affonseca; D: Robson Czaban.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

The Real Macaw! Cansou de arara, não?

Eu jurei pra mim mesmo que não ia usar este blog para entrar na minúcia de identificação de espécies muito parecidas de aves — coisa para um público mais especializado em observação de pássaros. Mas quando pousa e grita na sua frente, dentro do conjunto, a terceira e maior e mais difícil espécie de arara que tem na região, tem que contar pros vizinhos, não é?

A arara-vermelha (Ara chloropterus) tem uma mancha verde na asa (no lugar da amarela da araracanga), linhas escuras na cara, e um tom de vermelho mais escuro, além de outras diferenças mais sutis.

Por Mario Cohn-Haft

09 de janeiro de 2017

O título dessa postagem é um trocadilho de “bird-nerd” e vem de uma frase em inglês, “the real McCoy”, que significa “a coisa verdadeira”.  Não sei direito a origem, mas poderia ser usado assim, por exemplo: “Essa bijuteria é feita de lata e vidro, mas esse colar de ouro é the real McCoy”. Agora, inglês para arara é “macaw”, então não resisti comentar que, agora sim, recebemos visita da arara mais especial que temos: a arara-vermelha “verdadeira” (nome científico, Ara chloropterus).

Habita matas intactas de terra firme e muito raramente aparece na cidade ou em lugares com pertubação humana.

Você agora tá mais confuso que nunca, depois de ler tanto inglês, ouvindo que a arara vermelha que vê esses anos todos não é a verdadeira!  Como assim?  É que a nossa arara vermelha da cidade é, na nomenclatura oficial ornitológica, a araracanga (nome científico, Ara macao).  Ela difere da outra em vários detalhes. A mais notável é que ela tem uma mancha amarela na asa, que separa a cor vermelha do corpo do azul da ponta da asa. Na vermelha verdadeira essa mancha é verde e não se destaca tanto, formando um degradê de cores na asa. E têm outras diferenças mais sutis: a verdadeira é maior, de um tom de vermelho mais escuro (tipo sangue), a cara com linhas escuras mais visíveis, e a cauda mais grossa.

A araracanga (Ara macao) habita matas ribeirinhas e se adaptou às áreas verdes mais extensas da cidade.  Se destaca pela mancha amarela na asa e pelo tom de vermelho ligeiramente mais alaranjado.

Não duvide.  Apesar das semelhanças, são espécies diferentes mesmo.  Seus gritos são muito parecidos (e eu nem sempre arrisco dizer quem é quem pelo som), mas seus hábitos e distribuições divergem. A araracanga na região amazônica prefere florestas ribeirinhas. Como a maioria das aves adaptadas à cidade de Manaus, é basicamente uma espécie de várzea.  Já a arara-vermelha se limita mais às matas intocadas de terra firme, longe dos centros urbanos.

Hoje me surpreendi a topar com uma gritando no topo de uma árvore na esquina da Cedroramas com a Humboldt. A moradora Dayse já tinha me falado de ter recebido umas visitas dessa espécie numa fruteira dela no ano passado. Será que entrou nesse frenesi de papagaios que estamos vivendo?  Sorte a nossa!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Pescador do Asfalto?

Não é todo dia que ocorre um evento ornitológico memorável na caminhada matinal com os cachorros. Mas acontece com uma regularidade suficiente que me deixa sempre atento, sempre na expectativa de ver algo diferente. Ontem eu estava mais “leso” que normal, devido ao calor que nestes dias já amanhece fazendo. Sorte é que os cachorros também estavam um pouco desatentos e nem perceberam o que vi.  Aproximando ao final da Rua das Guariúbas, de repente notei a forma de um animal, grandinho até, afastando da gente caladinho em direção à mata. Grande demais para ser uma cutia, até demais para ser coro-coró. Era um socó!

O socó-boi adulto tem uma coloração elegante e ao mesmo tempo adaptada para ambientes de beira de lago. Chama-se “boi” por causa da vocalização que faz, mais comumente à noite, que lembra o mugido de boi (clique aqui para ouvir).

Por Mario Cohn-Haft

01 dezembro 2016

O socó-boi (Tigrisoma lineatum), da família das garças, é um bicho de florestas e beiras de lago, mas sempre associado a corpos d’água. Isso porque vive de comer peixes e às vezes sapos e outros bichos que vivem dentro ou próximo à água. O que tava fazendo andando pela Guariúbas? Suspeito que tava se fazendo essa mesma pergunta quando viu o quarteto predominantemente canino aproximando. Era um sub-adulto (pela plumagem dá para saber, compare as fotos) e talvez ainda pouco experiente em sobrevivência. Ou talvez já se adaptou a uma realidade semi-urbana e estava caçando ratos perto da lixeira de um vizinho ou algum bicho atraído por frutos que tinham caído no chão. Não sei. Enquanto eu olhava, ele só afastava lentamente, batendo seu rabo curto com nervosismo e olhando por cima do ombro pra gente, com aquele bicão de defesa. Mas não voou e nem entrou na mata. Deixamos ele em paz.

O jovem é todo pintado e por isso muitas vezes é chamado de “socó-onça” e tratado como se fosse uma outra espécie. O fato da vocalização, apesar de igual à do adulto, lembrar também o esturro da onça não ajuda a desmentir o nome ou a reconhecer que é tudo uma espécie só. Leva vários anos para trocar da plumagem juvenil para a adulta. Na “adolescência”, digamos, a plumagem passa por um padrão intermédiario entre os dois vestimentos ilustrados, misturando pintas com cores lisas. O pescador da Guariúbas era justamente um desses quase-adultos.

fotos: Anselmo d’Affonseca
gravação:  Luciano Naka

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Alguem mais notou? Araras-canindé no Acariquara

As araras vermelhas são um dos privilégios de Manaus. Onde mais se pode morar numa metrópole deste tamanho e ainda ver araras? Aqui no conjunto temos a sorte de vê-las quase todos os dias nas suas idas e vindas do seu lar, que talvez seja aqui perto na mata da UFAM. Mas nunca mais, há pelo menos dez ou quinze anos, eu havia visto a arara-canindé na cidade.


Por Mario Cohn-Haft

Numa caminhada matinal com meus cachorros em alguma manhã durante a segunda semana de outubro (não anotei a data lamentavelmente), vi um bando de 18 araras-canindé passando por cima do conjunto. Estavam todas juntinhas e passaram rápido como se estivessem a caminho de algum destino, não necessariamente tão perto. Me perguntei se as veria de novo. Ia até escrever para este blog, mas estava me preparando para viagem e, na pressa, não fiz. Imagine a minha alegria de descobrir, agora no meu retorno, que estão aqui ainda! Nos últimos três dias, tenho ouvido e visto várias araras dessas passando perto de casa.


Como saber se é uma canindé? Ela não é vermelha! Por cima (no dorso) ela é azul, e embaixo (no ventre e no “forro" das asas) ela é amarela—azul e amarelo, com uma cauda ate mais comprida e fina que a da vermelha. O povo da região às vezes chamam ela de “arara azul”, mas ela não é a mesma arara-azul do pantanal, nem a ararinha-azul do nordeste. E ela grita diferente da vermelha também. É sutil, mas se prestar atenção vai ver que o grito é mais gutural, r-r-r-r-r-raspando; ela é a única que grita seu nome, “arara!”


O que ela faz aqui? Vamos ficar de olho para saber.  A espécie tem uma preferência natural para buritizais. Antigamente, encontrava-se algumas na ponte do Igarapé do Mindu na Colônia dos Japoneses. Será que essas de hoje estão ficando no buritizal do nosso lago? Arara voa longe todo dia atrás de frutos para comer, mas volta a dormir no seu lugar predileto. Vamos curtindo essa visita enquanto podemos e torcendo por elas estarem se abrigando em algum lugar seguro, como o nosso conjunto, uma área verde que abriga tanta variedade de vida silvestre.


Mario Cohn-Haft
30 de outubro de 2016

fotos: Anselmo d’Affonseca
gravações:  Philip Stouffer e Luciano Naka

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Quem foi Alexander von Humboldt?

A via principal do Acariquara do Jacaré é chamada de Av. Humboldt, nome dado em homenagem ao alemão Alexander von Humboldt. Mas quem foi ele e o que sua obra representou para o mundo?

Alexander von Humboldt (1769 – 1859), tela de Friedrich Georg Weitsch, 1806.

Alexander von Humboldt foi um cientista alemão de uma polivalência que poucas vezes se observou na história da ciência, exercendo atividades de geógrafo, filósofo, historiador, explorador e naturalista. Entre 1799 e 1804, Humboldt viajou pela América do Sul, explorando-a e descrevendo-a pela primeira vez de um ponto de vista científico. Quando adentrou na Amazônia Venezuelana, em fevereiro de 1800, deixou a costa com o intuito de explorar o curso do rio Orinoco, em uma viagem que durou 4 meses e cobriu mais de 2750 km de uma terra inabitada, selvagem e inóspita. Como resultado, descobriu a existência de uma comunicação entre as bacias hidrográficas do Orinoco e do rio Negro, o famoso canal de Cassiquiare.

Mapa do Canal de Cassiquiare, que liga o Orinoco ao Negro. Humboldt não foi o primeiro europeu a tomar essa rota, mas o rigor dos seus dados e das descrições que realizaram fez com que não existissem mais dúvidas sobre a existência de uma passagem navegável entre os dois rios.

Foi até então uma das mais notáveis expedições científicas de todos os tempos, com uma massa de dados de um valor científico inestimável. Humboldt percorreu durante sua expedição através das Américas um total de 9.650 km, tanto a pé, como a cavalo e canoas. A expedição atravessou terras da Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Cuba e México, mas foi impedido de permanecer no Brasil, pois os portugueses consideraram-no um possível espião alemão após encontrarem-no em terras brasileiras perto da fronteira venezuelana!

Humboldt e Bonpland na Amazônia perto do canal de Cassiquiare com os instrumentos científicos e amostras tropicais. Pintura a óleo por Eduard Ender, 1856.

Durante sua expedição pelas Américas, ele obteve medidas mais precisas de latitudes e longitudes, melhorou mapas e coletou 60.000 plantas, das quais 6.300 até então desconhecidas, desenvolvendo conceitos importantes para a compreensão da distribuição geográfica das plantas.