Mostrando postagens com marcador Aves. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aves. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

'Se eu pudesse dormir mais um pouquinho só'... ou 'O que acontece antes dos periquitos chegarem?'

Por Mario Cohn-Haft

Para quem se interessa em pássaros, e especialmente quem presta atenção no som dos pássaros para saber quais e onde estão, a hora que acorda faz toda a diferença. É possível escutar nas primeiras duas horas da manhã mais tipos diferentes de aves do que se detecta no restante do dia inteiro. Isso é porque a hora de pássaro cantar é de mãnha cedo. Mas mesmo nesse horário (que uns consideram ingrato), existe uma agenda sonora muito apertada e rígida. Tem pássaro que começa a cantar logo que o sol nasce e outros que esperam o ar esquentar um pouquinho antes de vocalizar. E existe em grupo seleto de espécies que só canta naquele primeiro lusco-fusco do dia, quando mal começou a clarear e o sol ainda não nasceu. Esses, se você não estiver acordado antes do sol mesmo, não vai notar talvez nunca.

O arapaçu-meio-barrado (Dendrocolaptes picumnus) se chama assim porque tem barras horizontais apenas na barriga e flancos, enquanto é listrado na cabeça e peito. Ele é bem raro na cidade, e aparece somente nas áreas perto de floresta mais extensa. Foto: Anselmo d’Affonseca.

O arapaçu-meio-barrado é um desses. Canta durante alguns minutos no pré-amanhecer (e não em todos os dias) e depois passa o dia se cuidando, sem soltar um pio. Hoje o escutei aqui de casa pela primeira vez há mais de uma década. Foi porque ele tinha sumido e agora voltou? Não sei. Só sei que hoje, se eu não estivesse em pé escutando na janela do quarto exatamente entre 05:33-05:37, teria passado batido. 

Os arapaçus são pássaros que ficam colados nos troncos das árvores, feito pica-pau.  Mas pica-pau costuma furar madeira a procura de brocas e construindo seus ninhos.  O arapaçu é uma ave mais delicada, conta com o trabalho de outras espécies, ou a própria podridão da madeira, para cavar seus ninhos em oco, e cata insetos na casca dos troncos, sem fazer grandes estragos. 

Arapaçus são da cor do tronco, marrom avermelhado e marcados com listras ou risquinhos, mais ou menos dependendo da espécie.  Alías, são duzias de espécies, super parecidas, melhor diferenciadas pelo canto mesmo.  Aqui no Acariquara, uma é comum—o arapaçu-de-bico-branco—e umas outras tres são bem raras mesmo, inclusive o nosso protagonista de hoje. Ele é de mata extensa de terra firme. Mal tolera o limite da cidade onde pode a qualquer momento se retirar para dentro da mata grande.  Aqui no nosso conjunto, suspeito que só aparece quando se aventura a sair um pouco da mata da UFAM.  E mesmo lá, de repente não mora continuamente; talvez só chega de vez em quando, expulso de onde morava e na busca de mais floresta da boa mesmo. 

O arapaçu-de-bico-branco (Dendroplex picus) é a espécie de arapaçu mais comum na cidade. Diferencia-se do outro pelo ventre todo listrado e o bico claro. Foto: Anselmo d’Affonseca.


Sorte a minha que hoje ele se dignou a passar pelo meu quintal e cantar umas poucas vezes até a chegada zoada dos periquitos na mangueira. E mais sorte a minha que eu estava acordado para ouvir.


Posfácio—Três dias depois da observação relatada aqui, no dia 5 de dezembro às 05:19, eu ainda deitado na cama, escutei um canto do arapaçu-meio-barrado. Não se repetiu ao longo da manhã. Os periquitos chegaram do seu dormitório no V8 às 05:41. O sol nasceu às 05:43.


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Os Caçadores

Às vezes é preciso um pássaro para nos lembrar porque a gente mora no Acariquara, para lembrar o prazer da proximidade com a natureza, e para me despertar a escrever de novo.

Por Mario Cohn-Haft

(3 abril 2018)

Hoje foi um velho amigo, talvez conhecido por muitos de nós dos sítios e fazendas do interior deste país todo. O acauã é um gavião (mais corretamente um falcão, mas mais sobre isso outra hora) e hoje um cantava da árvore mais alta da esquina da Humboldt com a Cedroramas enquanto eu andava com meus cachorros.

Cabeçudo e de máscara preta, o acauã (Herpetotheres cachinnans) não lembra nenhuma outra ave.
Come cobras e lagartos e outras presas fáceis de pegar no chão.
Foto: Anselmo d’Affonseca.
O canto do acauã (ouça aqui) é um som do interior, nada que se espera ouvir numa cidade de dois milhões de habitantes. Mais sorte a nossa de poder ouvir de vez em quando aqui perto de casa. Esse cantou até atrair a atenção de um bem-te-vi, que perseguiu ele até voar embora. Outro dia volta.

(22 abril 2018)

Semanas depois, mais uma caminhada com os cachorros e mais uma ave de rapina especial. Hoje de tarde passou voando o gavião-caracoleiro. Como a maioria das espécies de aves caçadoras, é especializado em um certo tipo de presa, não pega qualquer coisa e jamais caçaria os pintinhos do quintal ou nossos gatinhos.

O gavião-caracoleiro (Chondrohierax uncinatus) se destaca pelas cores verde e amarelo da pele entre o bico e os olhos. Vive principalmente na várzea e come caramujos. Será que o que vi no Conjunto estava caçando os caramujos africanos? Foto: Anselmo d’Affonseca.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Sabia do sabiá? Saiba, são dois

Em nosso conjunto temos duas espécies de sabiá muito parecidas. Talvez você não tenha percebido a diferença, pois não é tão fácil reconhecer. 

por Mario Cohn-Haft
fotos Anselmo d'Affonseca


Pelo mundo são dezenas de espécies de sabiá, e só no Brasil mais de vinte. Provavelmente a mais conhecida ou celebrada das especies brasileiras é o sabiá-laranjeira, frequente em jardins e hortas em grande parte do sul e sudeste do país. Mas essa não ocorre na região amazônica, onde vivem várias outras espécies. Na nossa cidade temos duas, até muito parecidas: o sabiá-barranco (Turdus leucomelas) e o caraxué-de-bico-preto (Turdus ignobilis). Ocorrem juntinhos no conjunto, e talvez você não tenha percebido a diferença. Vou tentar esclarecer aqui como diferenciar esses dois sabiás, mas não é fácil reconhecê-los, então tenha paciência.

O sabiá-barranco é o mais abundante. Quase toda casa tem um casal que faz ninho de baixo do telhado da varanda em cima de uma viga protegida ou na caixa do ar condicionado. O casal mais persistente daqui de casa (pois já cheguei a ter um casal na frente e outro nos fundos) produz filhotes quase direto, acabando de tirar uma ninhada e na sequência já botando ovos de novo. Quando vê um sabiá no conjunto, deve partir do pressuposto que é o barranco, até comprovar o contrário.

É um sabiá meio sem visual muito marcante, predominantemente pardo. Se você conseguir ver uma das seguintes características, pode sentir segurança de que é mesmo o barranco: cabeça e nuca levemente acinzentadas, contrastando com a cor mais amarronzada das costas; olho ligeiramente avermelhado, diferente da maioria das espécies de sabiá. Mas sem binóculo ou uma proximidade boa com bastante luz é difícil notar essas coisas.

O sabiá-barranco (Turdus leucomelas) ou barranqueiro tem a cabeça mais acinzentada do que as costas e asas, e tem o olho avermelhado. O ventre é “lavado” de um bege meio uniforme.

Dependendo da luz, nem sempre as cores aparecem claramente. Neste caso, o olho vermelho já é suficiente para matar a identificação.
As vezes nenhuma característica diagnóstica se destaca, e por isso, nem sempre é possível sentir firmeza na identificação. Mas a própria falta de distinções já é uma pista.

Já o caraxué-de-bico-preto é menos comum e um pouco mais arisco, fazendo seu ninho escondido entre os galhos de árvores com copa densa e, que eu saiba, nunca nidificando em estruturas de origem humana. É do mesmo tamanho do barranco e também é predominantemente marrom. Mas o marrom dele é mais escuro e mais uniformemente distribuído pelo dorso, na cabeça, costas e asas. O olho é marrom também. Visto de peito no entanto, o caraxué (nome usado na Amazônia para vários tipos de sabiá) é mais contrastante, com a barriga e garganta bem brancas, se destacando da faixa marrom no peito e flancos.

O caraxué-de-bico-preto (Turdus ignobilis) é mais escuro e uniformemente marrom nas costas, asas, cabeça, e até os olhos.

Visto de frente, é mais contrastante em cor do que o sabiá-barranco. A barriga bem branquinha se destaca do peito e dos flancos marrons.

Com o pescoço esticado, o caraxué também mostra a garganta destacadamente branca.

A chave da diferenciação dos dois sabiás, na verdade, não é no olhômetro e sim pela voz. Eles têm repertórios vocais bem diferentes. O barranco canta de jeitos muito variados, as vezes mais alto, as vezes baixinho, as vezes até imitando os cantos de outros pássaros; mas sempre lento e espaçado. Seus apelos ou chamados (barulhos mais curtos e menos melodiosos do que o canto próprio) são ásperos e bem característicos. 

Escutem aqui as vozes do sabiá-barranco.

Já o canto do caraxué-de-bico-preto é bem agudo, melodioso, e mais rápido; seus apelos também mais finos. Para quem conhece o tordo-americano (Turdus migratorius, American Robin) da América do Norte, o canto é quase idêntico. 

Escutem aqui o caraxué-de-bico-preto, começando como canto e depois vários apelos.

Enfim, fora essas distinções relativamente sutis, as duas espécies tem mais em comum do que diferenças. Ambas descem para o chão para catar frutos caídos ou insetos e minhocas na grama ou de baixo das folhas secas. E ambas são originárias do ambiente de várzea (como são, na verdade, a maioria das aves da cidade), ou de áreas naturalmente mais abertas como o cerrado ou lavrados. Raramente ocorrem juntas fora de Manaus e de algumas outras áreas urbanas amazônicas. A convivência dos dois no mesmo lugar parece ser resultado da adaptação a ambientes criados pelo ser humano.

Agora, quase pronto para enviar essa materiazinha para o blog, me caiu uma outra ficha. Acho que tem uma diferença comportamental entre os dois também. Só depois de 30 anos olhando os pássaros da região que finalmente notei isso, e não tive tempo agora para testar essa observação. Mas deixo aqui notado para vocês mesmos tentarem usar e ver se funciona. O caraxué tem um hábito nervosinho de balançar rapidamente a cauda em pulsos ansiosos, nas raras vezes que pousa no aberto. Nunca vi o barranco fazer isso; ele anda e pousa com o rabo parado, sem mexer. Prestem atenção nisso e me contem se dá certo.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Pena de quem não viu

Essa historinha ornitológica não rolou no Acariquara. Mas aconteceu bem perto e será só uma questão de tempo até vermos a mesma coisa aqui dentro. Tomara!

Por Mario Cohn-Haft

Essa pena foi encontrada no campus do Inpa.  Parece ser a penúltima primária externa (a número nove na contagem técnica de penas de aves) da asa direita de uma coruja jacurutu (compare com as penas nesse link). Foi a primeira evidência da presença da nossa nova vizinha.
Começou há alguns meses quando a colega Summer me trouxe uma pena que encontrou no estacionamento do campus 2 do Inpa (onde trabalho). Tratava-se de uma pena de asa de coruja muito grande. Na coleção de aves, comparamos com as penas equivalentes das outras corujas conhecidas na região, mas essa era até maior do que a maior coruja que temos (o murucututu). Só restava uma opção, o jacurutu.

A coruja jacurutu é maior que muitos gaviões e pode comer ratos e mucuras à noite.  Estonteantemente bonita, ela nos brindaria com a sua presença no conjunto. Foto do Rio Grande do Sul: Robson Czaban.
Problema é que a coruja jacurutu (Bubo virginianus) não é uma ave tipicamente amazônica (veja mapa abaixo). O que estaria fazendo no estacionamento do Inpa? Devo acreditar que mora ali mesmo? A resposta veio agora. Outro dia, minha esposa, Rita, me disse ouvir um canto diferente de coruja no campus 1 do Inpa quando ela saía do trabalho depois de noite. Toquei alguns exemplares do canto de jacurutu e ela achava que batia. E o cerco ia fechando. Na noite seguinte procurei o som com a mestre Roberta e amigos. E ouvimos! Parece que tem pelo menos um jacurutu morando no Inpa!

A distribuição do jacurutu é ampla em toda a América, menos na região amazônica.  Fonte: https://www.allaboutbirds.org/guide/Great_Horned_Owl/id.

Acredito que esse registro combina com vários outros casos de expansões de distribuição associadas ao desmatamento (veja matéria Quando um “bom” passaro é um mau sinal?). A floresta amazônica de terra firme é um ambiente tão diferenciado que a maioria das suas espécies só moram ali, e dificilmente bichos de fora penetram. Mas na medida que alteramos o meio ambiente, os lugares de ocupação humana, especialmente cidades e fazendas, afastam a fauna da mata nativa enquanto proporcionam habitat para bichos de outros ecossistemas.

O jacurutu vive em áreas de cerrado e matas de galeria fora da Amazônia. Os poucos registros amazônicos vinham de locais com cerrado ou campinas extensas (veja o mapa de registros). Mas agora o jacurutu mora na cidade de Manaus. O campus do Inpa encosta no campus da Ufam, que por sua vez se cola no nosso conjunto. Fiquem atentos!

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Pavoneando no lago

Vou descobrindo com o passar do tempo que só contar os eventos ornitológicos notáveis, sem nenhuma forçação de barra, já dá um ritmo razoável a essa coluna esporádica.  Hoje a visita de honra foi de uma ave bem diferente, que apenas escutei, mas quando visto é um bocado estranha e um bocado bonita.  O pavãozinho-do-pará.

O pavãozinho-do-pará (Eurypyga helias) em repouso.  Foto: Anselmo d’Affonseca.

Por Mario Cohn-Haft
17 de maio de 2017

Foi cedinho durante a caminhada com os cachorros (naturalmente) que escutei o assobio meio preguiçoso, meio melancólico (clique para ouvir) vindo de algum lugar escondido na beira do lago. Não procurei, pois os cachorros teriam o assustado, e tava sem binóculo pra ver de mais longe. Mas se você procurar, não me surpreenderá descobrir que veio pra ficar por uns dias, talvez até umas semanas. Não seria a primeira vez.

Digo estranho porque não tem nenhuma outra ave parecida. É a única espécie da família Eurpygidae e só ocorre na parte tropical das Américas. Mas a espécie mais parecida, o kagu, é outro estranhão que ocorre somente em Nova Caledônia, pra lá da Austrália!

Se encontrar o pavãozinho caminhando discretamente no chão da mata, perto da água, vai lembrar algo entre um socó e uma saracura. Cata metodicamente as folhas secas, procurando insetos pra comer. Mas se você tiver a sorte de ver ele voar, aí vai se surpreender e ainda entender melhor o nome. As asas abertas revelam um desenho que lembra uma mandala ou um sol em cada asa, quase parecendo olhos de um outro ser, muito maior e inesperado (veja nesta foto http://www.wikiaves.com.br/227067 e outras no Wikiaves).

Por isso, vale gastar um tempinho na beira do lago procurando!

terça-feira, 14 de março de 2017

Quando um “bom” pássaro é um mau sinal?

A observação de aves é movida pelo prazer que o comportamento de pássaros proporciona para o observador e pela possibilidade, as vezes, de ver algo novo, algo diferente. “Hoje vi um bicho bom” significa que vi uma ave inesperada, uma fora da rotina. E vi mesmo!  

Por Mario Cohn-Haft

Conversando com a minha esposa dentro de casa logo cedo, cortei o papo por achar que ouvi um som muito diferente. Podia ser? Shh, espera. De novo! Corremos pra rua, olhamos pra cima e lá estava, voando muito alto e gritando: uma curicaca!

A curicaca (Theristicus caudatus) é da mesma família do coró-coró, a dos ibis.  Vem expandido sua distribuição Rio Amazonas acima com a expansão do desmatamento e da pecuária na várzea.  O indivíduo sobrevoando a cidade quase certamente estava em busca de uma nova área de campo para pousar.  Foto: Anselmo d’Affonseca.

Hoje é 14 de março de 2017 e, que eu saiba, esse foi o primeiro registro de curicaca dentro da cidade de Manaus.  Mas já vimos chegando há tempos.  Essa espécie, que forrageia em lamaçais na várzea, é nativa do baixo rio Amazonas (e ambientes não florestais fora da Amazônia, como o Pantanal), mas vem subindo o rio acompanhando a criação de gado na várzea. No estado do Amazonas, a região de Parintins até Itacoatiara tem curicacas há décadas. Mas a subida acima da boca do rio Madeira é relativamente recente. Há alguns poucos anos vem aparecendo na área do encontro das águas e ensaiando subir o Solimões pelas costas do Iranduba e Curari.

Curicacas andam em pastagens, especialmente em áreas de várzea.  O som que ela faz se ouve de longe e, como outras aves, entrega sua presença mesmo quando não se consegue vê-la.  Ouça seu grito no link do Wikiaves. Foto: Anselmo d’Affonseca.

E ela é apenas uma de várias espécies de aves que seguem o mesmo padrão.  O maçaricão quero-quero, o patinho ananaí, o tucanuçu, o avoante, e o pica-pau-branco ainda são todos pássaros “bons” para a nossa região.  Ou seja, são raros porque acabaram de chegar.  Mas vem acompanhando a onda de desmatamento que aos poucos substitui a floresta nativa por ambientes abertos antropizados.  Se não conseguirmos controlar o desmatamento, logo os bichos “bons” e difíceis serão aqueles que são daqui mesmo, e já foram comuns.  Sem drama, só um alerta.  Basta prestar atenção nos pássaros para ver o nosso rumo.

Exemplos de outras espécies de aves de campos de várzea do baixo rio Amazonas que agora começam a subir o Solimões com o desmatamento.  A) quero-quero (Vanellus chilensis), aqui na nossa região também chamado de téu-téu ou maçaricão; B) ananaí (Amazonetta brasiliensis); C) tucanuçu (Ramphastos toco); e D) pica-pau-branco (Melanerpes candidus).  Fotos A-C: Anselmo d’Affonseca; D: Robson Czaban.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

The Real Macaw! Cansou de arara, não?

Eu jurei pra mim mesmo que não ia usar este blog para entrar na minúcia de identificação de espécies muito parecidas de aves — coisa para um público mais especializado em observação de pássaros. Mas quando pousa e grita na sua frente, dentro do conjunto, a terceira e maior e mais difícil espécie de arara que tem na região, tem que contar pros vizinhos, não é?

A arara-vermelha (Ara chloropterus) tem uma mancha verde na asa (no lugar da amarela da araracanga), linhas escuras na cara, e um tom de vermelho mais escuro, além de outras diferenças mais sutis.

Por Mario Cohn-Haft

09 de janeiro de 2017

O título dessa postagem é um trocadilho de “bird-nerd” e vem de uma frase em inglês, “the real McCoy”, que significa “a coisa verdadeira”.  Não sei direito a origem, mas poderia ser usado assim, por exemplo: “Essa bijuteria é feita de lata e vidro, mas esse colar de ouro é the real McCoy”. Agora, inglês para arara é “macaw”, então não resisti comentar que, agora sim, recebemos visita da arara mais especial que temos: a arara-vermelha “verdadeira” (nome científico, Ara chloropterus).

Habita matas intactas de terra firme e muito raramente aparece na cidade ou em lugares com pertubação humana.

Você agora tá mais confuso que nunca, depois de ler tanto inglês, ouvindo que a arara vermelha que vê esses anos todos não é a verdadeira!  Como assim?  É que a nossa arara vermelha da cidade é, na nomenclatura oficial ornitológica, a araracanga (nome científico, Ara macao).  Ela difere da outra em vários detalhes. A mais notável é que ela tem uma mancha amarela na asa, que separa a cor vermelha do corpo do azul da ponta da asa. Na vermelha verdadeira essa mancha é verde e não se destaca tanto, formando um degradê de cores na asa. E têm outras diferenças mais sutis: a verdadeira é maior, de um tom de vermelho mais escuro (tipo sangue), a cara com linhas escuras mais visíveis, e a cauda mais grossa.

A araracanga (Ara macao) habita matas ribeirinhas e se adaptou às áreas verdes mais extensas da cidade.  Se destaca pela mancha amarela na asa e pelo tom de vermelho ligeiramente mais alaranjado.

Não duvide.  Apesar das semelhanças, são espécies diferentes mesmo.  Seus gritos são muito parecidos (e eu nem sempre arrisco dizer quem é quem pelo som), mas seus hábitos e distribuições divergem. A araracanga na região amazônica prefere florestas ribeirinhas. Como a maioria das aves adaptadas à cidade de Manaus, é basicamente uma espécie de várzea.  Já a arara-vermelha se limita mais às matas intocadas de terra firme, longe dos centros urbanos.

Hoje me surpreendi a topar com uma gritando no topo de uma árvore na esquina da Cedroramas com a Humboldt. A moradora Dayse já tinha me falado de ter recebido umas visitas dessa espécie numa fruteira dela no ano passado. Será que entrou nesse frenesi de papagaios que estamos vivendo?  Sorte a nossa!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Gritaria e confusão de madrugada

Parece a manchete do jornal vendido no semáforo, mas essa vez, como de praxe, vai ser só sobre as aves do Acariquara. No caso, a gritaria é das aves, mas a confusão pode ser a nossa pra entender quem tá gritando o que.

O coró-coró (Mesembrinibis cayennensis) anda pelo chão catando alimento, inclusive o caramujo africano.
(Foto: Anselmo d’Affonseca).

Por Mario Cohn-Haft

18 de dezembro de 2016

Por bem ou mal, parece que o gritador mor do amanhecer, o aracuã-pequeno (Ortalis motmot), já está bem conhecido e aceito na vizinhança. Virou até mascote do conjunto, eleito por maioria! Mas tem outra ave que vocaliza quase todo dia aqui, de forma parecida, que suspeito que tá passando batido por muitos moradores. É o coró-coró.

O coró-coró é uma ave de várzea que colonizou o nosso conjunto. Inicialmente aparecia só na beira do lago. Mas com a expansão do caramujo africano, ele começou a andar pelos quintais e áreas verdes comendo caramujos! Não sei quantos ele consegue comer, mas já ganhou o meu respeito pela tentativa.

Voando, o coró-coró grita seu nome e mostra que tem bico longo e curvo, mas quase não tem cauda.
(Foto: Anselmo d’Affonseca).

É uma ave pernuda, maior que uma galinha e quase preta, a não ser quando o sol bate e ilumina tons de verde brilhoso (mais sobre iridescência em aves em um post futuro). Mas como fica principalmente na sombra, parece escuro mesmo, com o bico comprido e curvo. Você nunca viu? Aposto que já escutou!


(Gravações: Luciano Naka e Phil Stouffer).

Sim, grita de madrugada, durante o dia e até à noite. E o som lembra o do aracuã. Então, como saber a diferença? Ambos chamam seu próprio nome. Um faz “araQUAM-araQUAM-araQUAM-araQUAM”, às vezes vários gritando de uma vez. Para lembrar o som e aparência do aracuã, clique aqui.

O coró-coró faz "coró-coró-coró-coró-coró-coró…” quando passa voando, e faz um ronco, longo e prolongado quando pousado numa árvore, esperando descer pro chão para procurar comida (clique aqui para ouvir).  Se você avistar o gritador, também é fácil distinguir: o aracuã tem rabo comprido e bico curto; o coró-coró tem bico comprido e rabo curto. Simples assim.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Pescador do Asfalto?

Não é todo dia que ocorre um evento ornitológico memorável na caminhada matinal com os cachorros. Mas acontece com uma regularidade suficiente que me deixa sempre atento, sempre na expectativa de ver algo diferente. Ontem eu estava mais “leso” que normal, devido ao calor que nestes dias já amanhece fazendo. Sorte é que os cachorros também estavam um pouco desatentos e nem perceberam o que vi.  Aproximando ao final da Rua das Guariúbas, de repente notei a forma de um animal, grandinho até, afastando da gente caladinho em direção à mata. Grande demais para ser uma cutia, até demais para ser coro-coró. Era um socó!

O socó-boi adulto tem uma coloração elegante e ao mesmo tempo adaptada para ambientes de beira de lago. Chama-se “boi” por causa da vocalização que faz, mais comumente à noite, que lembra o mugido de boi (clique aqui para ouvir).

Por Mario Cohn-Haft

01 dezembro 2016

O socó-boi (Tigrisoma lineatum), da família das garças, é um bicho de florestas e beiras de lago, mas sempre associado a corpos d’água. Isso porque vive de comer peixes e às vezes sapos e outros bichos que vivem dentro ou próximo à água. O que tava fazendo andando pela Guariúbas? Suspeito que tava se fazendo essa mesma pergunta quando viu o quarteto predominantemente canino aproximando. Era um sub-adulto (pela plumagem dá para saber, compare as fotos) e talvez ainda pouco experiente em sobrevivência. Ou talvez já se adaptou a uma realidade semi-urbana e estava caçando ratos perto da lixeira de um vizinho ou algum bicho atraído por frutos que tinham caído no chão. Não sei. Enquanto eu olhava, ele só afastava lentamente, batendo seu rabo curto com nervosismo e olhando por cima do ombro pra gente, com aquele bicão de defesa. Mas não voou e nem entrou na mata. Deixamos ele em paz.

O jovem é todo pintado e por isso muitas vezes é chamado de “socó-onça” e tratado como se fosse uma outra espécie. O fato da vocalização, apesar de igual à do adulto, lembrar também o esturro da onça não ajuda a desmentir o nome ou a reconhecer que é tudo uma espécie só. Leva vários anos para trocar da plumagem juvenil para a adulta. Na “adolescência”, digamos, a plumagem passa por um padrão intermédiario entre os dois vestimentos ilustrados, misturando pintas com cores lisas. O pescador da Guariúbas era justamente um desses quase-adultos.

fotos: Anselmo d’Affonseca
gravação:  Luciano Naka

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Araramania!

Elas continuam aqui, as araras-canindé. Hoje mesmo vi umas vinte ou mais circulando as copas das árvores na área verde entre a Cedroramas e a Seringas/Copaíbas. E não foi so canindé, tinha araracangas no pedaço também, aquela nossa velha amiga arara vermelha que mora por aqui. Aliás, não estão apenas as araras. Tem a maracanã, a maritaca, o papagaio, e periquito pra caramba. Tá um verdadeiro carnaval de psitacídeos!

Canindés (Ara ararauna) comendo açaí (foto: Marcos Amend).
Por Mario Cohn-Haft

13 de novembro de 2016

Dá um ar de ocasião especial, mesmo, não?  A gritaria, as revoadas. Parece que no momento tem muita coisa para comerem aqui, muitos frutos, tanto de árvores frutíferas plantadas,como também nas árvores nativas das nossas áreas verdes. Invasões esporádicas de aves atrás de comida (como já presenciamos com os tucanos em 1989-90) são eventos misteriosos. Não está claro se o que estimula é a abundância de alimento onde aparecem (como ficam sabendo?) ou uma escassez em seu lugar de origem (de onde vieram?) ou as duas coisas juntas.

De qualquer forma, o espetáculo vale o ingresso. Aliás, só o que temos que fazer para ter o privilégio de curtir isso de vez em quando é continuar deixando as nossas árvores em pé. E isso já é a nossa marca registrada aqui no Acariquara.

Maracanás-do-buriti (Orthopsittaca manilata) também aproveitam o açaí (foto: Anselmo d’Affonseca).

Mais conhecido como maritaca, o periquitão (Psittacara leucophthalmus), como é nomeado oficialmente, vive na cidade o ano todo, às vezes formando bandos grandes e barulhentos.  Destaca-se pelo tamanho médio (entre periquito e a maracanã) e as marcas vermelhas distribuídas aleatoriamente pela cabeça (foto: Anselmo d’Affonseca).

O periquito-de-asa-branca (Brotogeris versicolurus) volta todo ano da várzea onde reproduz.  Os bandos enormes aproveitam a safra de mangas urbanas de dia e dormem todos nas árvores do V8.
Merecem um post só sobre eles—calma aí!  (foto: Anselmo d’Affonseca).

Saiba mais


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Alguem mais notou? Araras-canindé no Acariquara

As araras vermelhas são um dos privilégios de Manaus. Onde mais se pode morar numa metrópole deste tamanho e ainda ver araras? Aqui no conjunto temos a sorte de vê-las quase todos os dias nas suas idas e vindas do seu lar, que talvez seja aqui perto na mata da UFAM. Mas nunca mais, há pelo menos dez ou quinze anos, eu havia visto a arara-canindé na cidade.


Por Mario Cohn-Haft

Numa caminhada matinal com meus cachorros em alguma manhã durante a segunda semana de outubro (não anotei a data lamentavelmente), vi um bando de 18 araras-canindé passando por cima do conjunto. Estavam todas juntinhas e passaram rápido como se estivessem a caminho de algum destino, não necessariamente tão perto. Me perguntei se as veria de novo. Ia até escrever para este blog, mas estava me preparando para viagem e, na pressa, não fiz. Imagine a minha alegria de descobrir, agora no meu retorno, que estão aqui ainda! Nos últimos três dias, tenho ouvido e visto várias araras dessas passando perto de casa.


Como saber se é uma canindé? Ela não é vermelha! Por cima (no dorso) ela é azul, e embaixo (no ventre e no “forro" das asas) ela é amarela—azul e amarelo, com uma cauda ate mais comprida e fina que a da vermelha. O povo da região às vezes chamam ela de “arara azul”, mas ela não é a mesma arara-azul do pantanal, nem a ararinha-azul do nordeste. E ela grita diferente da vermelha também. É sutil, mas se prestar atenção vai ver que o grito é mais gutural, r-r-r-r-r-raspando; ela é a única que grita seu nome, “arara!”


O que ela faz aqui? Vamos ficar de olho para saber.  A espécie tem uma preferência natural para buritizais. Antigamente, encontrava-se algumas na ponte do Igarapé do Mindu na Colônia dos Japoneses. Será que essas de hoje estão ficando no buritizal do nosso lago? Arara voa longe todo dia atrás de frutos para comer, mas volta a dormir no seu lugar predileto. Vamos curtindo essa visita enquanto podemos e torcendo por elas estarem se abrigando em algum lugar seguro, como o nosso conjunto, uma área verde que abriga tanta variedade de vida silvestre.


Mario Cohn-Haft
30 de outubro de 2016

fotos: Anselmo d’Affonseca
gravações:  Philip Stouffer e Luciano Naka

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Morador registra espécie de ave inédita no Acariquara

Visita Surpresa
Rua dos Araparis, 08 de setembro de 2016

Foto: Anselmo d’Affonseca.
Por Mario Cohn-Haft

Hoje de manha cedo, logo depois da minha caminhada com os cachorros (sim, aquela latição que a vizinhança toda conhece e esconjura), escutei um barulhinho especial.  Do alto daquela castanheira magnífica dos vizinhos Roberlan e Roberta, escondido dentro da copa, gritava um casal de apuim-de-costas-azuis.  O nome é quase maior que o bicho, que é um periquito miudinho e bem raro na cidade. Não sei o que estava fazendo aqui e acredito que já foi embora. Não deu para ver nada, mas o som entregou sua presença. É um gritinho esquisito, anasalado (escute abaixo ou pelo link).

Gravações: Curtis Marantz e Luciano Naka.

Pena não ter aparecido melhor, mas é um pássaro arisco mesmo. Quando pousado quase não tem marcas diagnósticas. Mas em voo mostra uma mancha azul nas costas (parecido com o periquitinho-santo, que é menor ainda) e a cauda roxa! É quase impossível ver essas cores no animal vivo.  Mas no exemplar empalhado, você consegue ver bem.  Por isso, aproveito e convido todos os vizinhos a visitarem a Coleção de Aves do Inpa, da qual sou responsável. Funciona e recebe visita cinco dias por semana, no horário normal do serviço público. Se quiser que eu atenda pessoalmente, só às tardes, ok?

Sejam bem-vindos!

Abraços,

Mario

Saiba mais